O meu testemunho…

Vivências de infância

Toda a minha infância foi vivida em uma família completamente disfuncional, tive um crescimento sem quaisquer referências de pai e de mãe, apesar de estarem fisicamente presentes na minha vida… apenas se limitavam a viver ligados aos seus pesados dramas emocionais e de casal. É impossível alguém nutrir uma criança, quando as suas próprias carências emocionais nunca foram nutridas

Fui obrigada a crescer por minha conta, o afecto e amor foram palavras que apenas ouvia outros falar, e ainda hoje faço um grande processo de aprendizagem e de abertura para que cada vez mais o passado deixe de ser uma sombra no meu presente. Para que nada no meu subconsciente possa contaminar logo à partida qualquer tipo de ligação e relacionamento que decida ter. Como todos sabemos, estes são processos de crescimento que jamais terminam, e apenas temos que aprender a saber lidar com eles e a tê-los como aliados ao crescimento.

Desequilibrios emocionais

Já depois de crescida…
A minha mãe ficou completamente desequilibrada emocionalmente, clinicamente foi diagnosticado esquizofrenia, que como sabem é “classificada” como uma doença sem cura.

Durante aproximadamente 13 anos vivenciei as mais bizarras situações de “loucura” inerentes à doença da minha mãe. Na altura não tinha qualquer maturidade para compreender estas questões e pouco mais fazia para além de chorar e de me sentir perdida, desprotegida, vazia, e sem perceber o sentido da vida…

Como adolescente que era, para além do vazio interior que já tinha e que não sabia preencher, sentia-me completamente perdida no meio de “gente que eu achava selvagem”….óbvio que hoje em dia eu não acredito em injustiças e/ou Deuses injustos, mas na altura a única sensação que tinha era de ódio por mim mesma. Não tinha a mínima noção de mim nem do sentido que tudo poderia ter. Tive a “sorte” ou a “sabedoria” de não ser propensa à toxicodependência senão estou certa que teria uma carreira promissora no mundo das drogas. A minha vingança, quando estava fora de casa, era rir muito e fazer aventuras muito divertidas e às vezes até mesmo arriscadas…quando estava em casa…apenas a dor, o vazio e o ódio por mim mesma me faziam companhia. Todos os dramas emocionais familiares tatuaram o meu subconsciente de uma forma tão profunda que eu não tinha a mínima consciência da profundidade dos traumas.

Ódio por mim mesma, vazio emocional

Acabei por compensar o meu odio por mim própria através da comida, tive bulimia durante vários anos…felizmente com todo o meu processo de crescimento interior consegui libertar-me.

Tornou-se, também para mim, impossível ligar-me emocionalmente e afectivamente a alguém, quer por amizade quer amorosamente porque qualquer aproximação para mim representava uma ameaça. Obvio que para uma pessoa em que os próprios pais, que supostamente deveriam proteger e nutrir representavam a própria ameaça, jamais essa pessoa poderá alguma vez sentir confiança em alguma pessoa enquanto não se curar e estruturar emocionalmente.

Todas as pessoas que se tornassem mais próximas de mim representavam uma ameaça e activavam todos os meus dramas interiores e traumas….no entanto eu acusava os outros pelo que eu estava a sentir…nunca eu poderia vivenciar amor e afecto enquanto não percebesse que a culpa de eu sofrer não era dos outros mas sim do facto de essas mesmas pessoas tocarem em interruptores que ligavam as dores emocionais tatuadas no meu coração e subconsciente. E assim vivi durante anos e anos, sempre a acusar o mundo pelo meu sofrimento…até que entendi que alguma coisa não batia certo nesta história toda de achar que a culpa era de todos menos minha….e consegui ter a felicidade e a inspiração de entender que nada é por acaso e que com os desafios se pode ter duas escolhas….ou os utilizamos para ser os coitadinhos, ou os utilizamos para sermos os sábios.

A vitima ou o sábio?

Existem 2 tipos de pessoas….os coitadinhos e os sábios…e cabe-nos a nós decidir qual das duas queremos ser.

Assim, hoje consigo perceber que quem tem vida fácil têm tendência a ser uma pessoa estagnada….em todo o caso com o tempo percebemos que com a sabedoria, o que antes era difícil, agora não passa de uma forma de aprendizagem e serão bem vindos todos os desafios porque percebe-mos que é para o nosso bem. Neste momento sinto que tudo o que vivenciei foi uma bênção que me tornou o ser que sou….com uma força interior poderosa e com um coração mais doce e aberto a conseguir confiar cada vez mais no amor e nos afectos e nas pessoas em geral.

A nossa cura, é a cura de quem nos rodeia.

Agora voltando ao caso da minha mãe….acho importante referir que ao contrario das espectativas de qualquer diagnostico clínico, a minha mãe ficou curada….pela simples razão que ela decidiu neurologicamente ter uma reviravolta…decidiu por ela, “matar” (simbolicamente falando)o meu pai e todo o passado, como se de um vulcão se tratasse saiu uma força brutal de dentro dela que a tornou numa pessoa super dinâmica, sempre arranjada, vaidosa…uma autêntica “velha gaiteira” …o meu pai frequenta agora um centro espiritual, e pela primeira vez o vi a chorar e também ele, ao seu ritmo se vai tornando uma pessoa mais consciente… e independentemente do que é, o que interessa é criar um sentido superior às nossas vidas.

Por vezes a educação dos pais nasce pelo exemplo e compreensão dos filhos.

Hoje eu consigo entender que apesar de os meus pais, serem mais velhos não significa que sejam mais maduros em termos de “ser em consciência”…afinal, são o resultado da educação difícil que tiveram e também eles contaminados por profundos traumas….compreendo agora que afinal não eram eles que tinham de me dar estrutura, era eu que tinha de crescer para os ajudar a libertarem-se dos “instintos quase animais” que sentia de que a vida é uma questão de “se não matas, morres” (simbolicamente falando)…é preciso entender que nós devemos por obrigação, “SER O EXEMPLO QUE QUEREMOS VER”…..se queremos um mundo melhor, temos nós mesmos de ser esse mundo diferenciado de amor….caso contrário quem somos nós para apontar o dedo?

Gostava de dizer que a evolução dos meus pais não se concretizou porque eu lhes disse para mudar…mas cada vez mais considero que comportamento gera comportamento e se consolidarmos o respeito por nós mesmos e se dermos um bom exemplo as pessoas à nossa volta acabam beneficiar dessa evolução, ou por observarem e se questionarem…acredito que a verdadeira educação é o exemplo que damos.

Love Dolphin

Texto original de Love Dolhpin para o site www.tratamentodadepressao.org

“Reprodução permitida desde que citada autoria e fonte com hiperligação (link)”

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