Embora existam diversas perspetivas e visões sobre o medo, neste artigo iremos abordar o medo revelado pela ansiedade do desconhecido e pela necessidade de projeção frustrada de uma vontade baseada numa falsa identidade.

O medo é uma emoção que surge da necessidade de controlar a incerteza e o desconhecido. Nasce da frustração dos esforços e das tentativas de criar permanência no impermanente. Alimenta-se da necessidade de tentar controlar e manter estável todas as questões da vida que tem uma inevitável natureza mutável e incerta.

O sentimento de ameaça e medo tem origem na dualidade, onde tudo é mutável, impermanente e morre. No planeta Terra, tudo está sempre sujeito a mudanças a todos os níveis, que geram insegurança a quem não sabe e não aceita o que está contra a sua própria vontade e contraria a sua verdade. Inevitavelmente, as questões da vida humana, tendem a seguir um fluxo inesperado, não revelado, sofrem alterações inesperadas, podem mesmo desaparecer e até a morrer. O facto de querermos controlar tudo à nossa vontade, de temermos tudo o que é impermanente, e evitarmos que a vida flua de forma espontânea, ameaçando a nossa expectativa, gera muito medo, angústia, depressão e sofrimento.

Desde a nossa infância que temos vindo a criar uma falsa identidade limitada por condições externas (como ser bonita, ter dinheiro, ser doutora/o, ter sucesso, ser amada, ser considerado/a etc.).  E assim vamos seguindo caminho, ano após ano, vivência após vivência, sustentando uma vida baseada numa realidade de crenças que sustentam uma identidade superficial e vazia de valores. Verdades que já não servem para nos sentirmos valorizados, com alegria de viver e muito menos servem um propósito de vida baseado na consciência que somos consciência.

A Falsa Identidade sustentada por crenças de valorização baseadas em condições externas

A falsa identidade que muitos de nós vamos cimentando sobre areias movediças, revela-se pela nossa “estrutura de crenças interna”, alimentando um propósito de vida fútil e inútil, que inevitavelmente nos levará à frustração e ao fracasso, devido à sua dependência de condições externas para sobreviver.

O nosso sistema de crenças, demonstra o quanto acreditamos que é no exterior (nos outros, nas circunstâncias, nas realizações e conquistas), onde se encontra o nosso senso de valor, de reconhecimento e de alegria de viver. Ao criar esta dependência e ao atribuirmos o poder da nossa felicidade e realização interior a condicionantes externas, estão-se a criar todas as condições para que nasça o medo de não alcançar o resultado dos esforços a que nos estamos a propor. Assim, e em consequência, cria-se o medo de não sermos correspondidos nas nossas expectativas, revelando-se desta forma, o nascimento de uma fonte garantida de sofrimento.

É no nosso sistema de crenças, que tem origem o grau, mais ou menos elevado, da nossa ilusão de que o nosso valor e mérito está no reconhecimento dos outros, nas conquistas alcançadas, no sucesso exterior e nas grandes realizações.

O medo nasce na necessidade de controlar desconhecido

Quanto maior é esta ilusão, maior é o medo de não alcançar, de não ser visto, de não ser reconhecido, de não corresponder ao que esperam de nós, de não ser amado, de não ser considerado, de não ser suficientemente bom, de não ser suficientemente perfeito, etc.

Quando associamos o nosso valor e alegria de viver a algo impermanente, sujeito constantes mudanças, e com condições além do meu control, naturalmente surge o medo de perder essa atual identidade de quem sou e de onde surge o meu valor, associado ao “meu sucesso” presente. Por exemplo, uma mulher bonita, que use a sedução para ser valorizada e apreciada, a sua identidade estará associada ao corpo e beleza (impermanente) e com toda a certeza, se a pessoa não aceitar o desapego dessa identidade sofrerá horrores com o processo natural de envelhecimento.

Há medida que a vida vai avançando, e essas tentativas de falso sucesso/reconhecimento se vão frustrando, a identidade ilusória vai perdendo a força, e a nossa alegria de viver e o senso de valor vai morrendo com ela dentro de nós. Muitas vezes acreditamos que mais vale morrer por dentro e desistir, do que colocar em causa e mudar essas verdades e crenças internas. E assim, nascem depressões e tantos outros desequilíbrios emocionais, pela inabilidade e falta de predisposição ao questionamento sobre essa identidade falsa sustentada por crenças fúteis e inúteis.

Velhas crenças e verdades absolutas cristalizadas paralisam a evolução

Não parando um segundo para fazer auto indagação sobre qual o sentido da velha identidade, que credibilidade terão as velhas crenças e verdades absolutas em que baseamos toda a nossa vida, relações e propósitos. Essa luta incessante para atingir o reconhecimento e valorização fora, gera um incrível medo de que as expectativas venham a ser frustradas, e o sofrimento vem com a resistência em não aceitar mudar essa realidade interna baseada em falsas verdades e crenças quando todo o nosso universo desmorona ao nosso redor.

Com a não realização dessas mesmas expectativas fundamentadas em um senso de valor e sentido de vida completamente vazio de sentido supremo, e a ausência de questionamento sobre a credibilidade das nossas crenças internas, surgem estados de desequilíbrio profundos.

Então, em vez de nos fecharmos no vazio da frustração e do sofrimento, há que abrir o coração e repensar todo o universo interno e se a direção em que investimos os nossos esforços, farão algum sentido e ressonância com uma dimensão superior à qual não podemos fugir.

Busca interna sobre quem verdadeiramente somos

Questionar profundamente qual a verdadeira fonte onde podemos buscar o nosso verdadeiro valor, sobre o sentido supremo e essência da vida , sobre o que é esperado de nós numa visão holística e profunda do Ser, sobre o que temos de alcançar como Seres de consciência.

Quando nos alinhamos com a nossa verdadeira essência, e tomamos consciência que somos consciência, entregando-nos ao fluxo da vida, aceitando o que é como é, tirando partido das crises para nos alinharmos com a nossa verdadeira essência, aí o medo deixa de ter força. Ao assumirmos a responsabilidade de que todo o sofrimento é causado pela nossa resistência em aceitar o que não controlamos, aceitar “perder” (ou aptarmo-nos) ao que é impermanente, aceitar que não temos poder sobre o que é exterior a nós (e também, por vezes, o que está no nosso interior), tudo mudará no nosso interior, e provavelmente no exterior.

Onde há luz, não há espaço para sombras

O medo desaparece quando quando temos a compreensão profunda de que estamos muito para além da matéria, e que somos pura consciência.  Aceitar que estamos muito além do nosso corpo/mente, da nossa história (passado/futuro) e que não somos de essência impermanente, o que realmente somos não é matéria, não morre e não desaparece.

Todo este processo de consciencialização, requer muito trabalho interno, de silêncio, auto observação (emoções e pensamentos) e de busca da nossa verdadeira identidade. Este é um trabalho que tem de ser feito todos os dias, 24 horas por dia. Entregarmo-nos de coração a um encontro profundo com a nossa essência, para que consigamos identificar todas as nossas falsas identidades, e integrarmos o desapego dessa falsa identidade, para que o medo deixe de existir, assim como a libertação do sofrimento inerente a essa “perda” natural de tudo o que está em constante mutação e é impermanente.

A meditação e o silêncio são extremamente importantes para conseguirmos fazer a identificação destas falsas identidades (ego), que tanto nos desequilibram e causam medo e o sofrimentos. O medo pode surgir em forma de ansiedade, pânico, desespero, angustia, sensação de perda de controle, medo de ficar louco, pensamentos negativos e com a atenção plena sobre tudo o que se passa dentro de nós, vamos conseguindo alcançar estados cada vez mais calmos e alguma tranquilidade.